Este é um relato de Dominique Drace, o garoto de apenas quatorze que foi capaz de trazer os sonhos à um mundo cheio de cinzas e desesperanças.
Préludio:
O que um sonho inocente pode fazer.
Bom na verdade nem sei como começar, é acho melhor começar com meu nome e depois falar um pouco sobre mim e sobre minha família...
Aliás não! Melhor não. Minha família é muito igual a de todo mundo, pessoas racionais que vivem de forma racional, fazendo coisas racionais e não sonham.
Ops! Falei o nome sonho, esqueci que minha mãe está logo ali na cozinha fazendo um bolo, ela de forma nenhuma pode me ouvir dizendo isso; pois é, sonhar aqui é proibido, quem sonha é doente, é considerado louco e é um risco para a sociedade, claro que nem sempre foi assim havia uma época que todos sonhavam e comentavam seus sonhos com amigos, os sonhos as vezes eram até interpretados; não consigo imagina uma época tão bonita como essa mas... em fim vamos a história de uma vez!
Acho que não faz mal eu dizer meu nome e minha idade, acredito que não vai quebrar o clima; então lá vai, só me prometam que não vão rir.
Meu nome é Dominique Drace, ai não acredito que você já deu essa risadinha de canto; umpf... ta bom eu sei que é engraçado mas evita rir ta? Afinal todo mundo já ri de mim mesmo, mas continuando; tenho quatorze anos, sei que parece estranho um cara de quatorze anos escrevendo uma história, mas acredite isso não é a única coisa estranha que você vai encontrar nessas paginas. Pra falar a verdade se você for alguém de outra realidade e sonha com freqüência você poderá me entender um pouco mais se não for você vai ficar confuso ou cairá definitivamente nas garras de Realidade, então cuidado.
Bom até meu aniversário eu era um garoto normal, freqüentava uma escola normal, tinha amigos normais e nunca; isso mesmo, nunca havia sonhado na vida. Exatamente! Nem mesmo aqueles sonhozinhos bobos e maravilhosos em que agente voa ou come doces com gostos inusitados. Nunca mesmo! E o mais estanho é que isso começou a mudar misteriosamente.
Na noite do meu aniversário de quinze anos, quando tive meu primeiro sonhos foi de assustar, cores diferentes, arco-íris, nossa como foi perfeito ver o arco-íris eu só tinha ouvido falar até então, a água era cristalina a chuva de tão límpida parecia gotas de prata caindo do céu; tudo era tão perfeito e emocionante que foi assustadoramente horripilante.
Bom tente imaginar o choque, uma criança de quinze anos que nunca havia sonhado na vida se deparar com toda essa informação; pois é, eu suava frio como um copo de água gelada enquanto abraçava minha mãe freneticamente e balburdiava sobre coisas que pra ela não faziam o menor sentido. Bom não deu outra; fui ao medico, isso mesmo nem adianta se espantar, quando agente sonha aqui recebemos tratamento adequado, e eu tinha horror a médicos; estava tão apavorado, eu poderia agüentar tudo, até injeções só não agüentaria ser igual as crianças do internato para jovens iludidos.
Coisas horríveis eram comentadas sobre aquele lugar, meus amigos normais falavam sobre experiências macabras, cirurgias dolorosas, tratamentos de choques entre outras berberes. No caminho para o consultório do Dr.Oliver eu não conseguia parar de tremer por um só instante, a simples idéia de eu poder ser internado me deixava com fortes tonturas.
Olha, o lugar onde moro é uma mistura de tons de cinza, quando faz sol as coisas parecem menos cinzas e quando chove fica tudo quase escuro, dá pra você ver o ar que respira por causa dos inúmeros poluentes no ar; mas nada disso se comparava ao consultório do Dr.Oliver, o lugar era frio e terrível, talvez fosse apenas o ar condicionado que estivesse sempre no Maximo, mas a expressão ríspida e intelectual acompanhada de uma cabeleira grisalha, um instrumento de metal que pendia em seus ouvidos e o seu jaleco branco faziam tudo parecer um filme de terror daqueles bem undergrouds.
A seção de exames parecia não ter fim, eu respondia todas as perguntas que ele fazia e comentava sobre meu sonho, e o meu medo era nada mais nada menos que uma reação lógica para o que estava por vir; é isso mesmo que você pôde presumir ai, diagnostico medico igual a INTERNAMENTO.
Minha mãe estacou pasma, quanto a mim? Claro que sai correndo feito um louco! Tentando fugir, abri as portas da sala desesperado, passei rápido como uma bala pelo corredor mas não adiantou nada, foi só Dr.Oliver gritar:
_ILUDIDO!
E um monte e enfermeiros troncudos e carrancudos apareceram de repente e me seguraram com tanta força que eu pensei que meus braços iam quebrar; depois disso lembro apenas de uma picada de agulha e tudo ficando estranho como um caleidoscópio, girando turvo e enovoado.
Capitulo 1
O internato para jovens iludidos.
Você pode até tentar imaginar um lugar, frio, asqueroso,cinzento , sombrio e assustador; talvez você tenha pensado numa caverna com monstros ou masmorras assustadoras, ou quem sabe na sala do diretor mais acredite eu preferia mil vezes estar em uma masmorra lutando contra um Dragão, ou até mesmo de castigo na diretoria do que estar naquele lugar.
A estrutura interna parecia um hospital gigante, com todas aquelas luzes florescentes e assoalho de mármore branco, as paredes lisas eram todas de cor cinza claro, e aqui e ali quadros de médicos renomados pareciam encarar você por onde quer que fosse, os educadores usavam roupas sociais e a todo instante estavam com uma cara insatisfeita de gente que trabalhava demais e era mal remunerada.
O lugar era dividido em três pavilhões e em cada um deles havia um prédio de dois andares, a área de entrosamento que os internos chamavam de pátio, era enorme, mais não havia nenhuma planta, estatua bonita ou qualquer brinquedo; era apenas um espaço meio retangular com bancos de cimento aqui e ali cujo centro havia uma estatua memorial do fundador da instituição, o senhor Robert Roberts; que possuía um nariz enorme e era feio pra danar.
Os imóveis eram meticulosamente ordenados um ao lado do outro todos com uma pintura cinza velha e manchada da chuva, o primeiro prédio da direita para a esquerda funcionava uma espécie de escola, onde aprendíamos que essa coisa de sonho não existia e é claro as matérias normais como português, matemática, história etc.
No segundo funcionava a enfermaria, que possuía um arsenal de remédios controlados que eles nos davam para que não pudéssemos dormir ao dia, pois dessa forma, a noite estaríamos exaustos o suficiente e não sonharíamos; e alguns leitos de internamento para jovens que persistissem com os sintomas.
O terceiro prédio era o dormitório, as meninas ficavam no segundo andar e os meninos no primeiro, e mesmo que agente quisesse mesmo fazer “grandes amigos” nossas conversas eram vigiadas pelos assistentes sociais que andavam a noite inteira como se fossem seguranças pelos corredores. O local era um verdadeiro presídio.
As primeiras semanas foram bem difíceis, eu rezava para não sonhar e para sair logo daquele lugar horrível, o contato com a família era restritamente proibido não podíamos assistir TV e éramos obrigados a passar por uma bateria de exames toda semana para ver se estava tudo ok. Os médicos disseram que meu internamento era apenas de dois meses e que eu já possuía um mês sem nenhum sintoma e se continuasse assim eu ficaria em de alta mais cedo que imaginava. Nossa como aquilo me reconfortava!
Tudo estava tudo muito bem; mas é claro que nada é perfeito. Era minha ultima semana de internamento e eu estava eufórico, tipo contava os dias nos dedos sabe? Certo que não haveria nenhuma festa me parabenizando lá fora, mais ficar naquele lugar era uma idéia simplesmente desesperadora.
Bom, como era de se esperar meus problemas começaram outra vez; numa manhã caracteristicamente cinzenta com inúmeras nuvens de chuva nos céu eu estava na sala de aula, vestido igual a um pingüim de geladeira, pode ter certeza um menino baixinho e ruivo, com o rosto cheio de sardas vestido com trajes sociais escolares era simplesmente ridículo. E isso não era nada se comparado a hora da chamada.
A professora estava dando aula de filosofia, claro que ela não estava ressaltando mitologia grega, estava apenas nos mostrando como a filosofia foi de suma importância para a quebra de mitos inexistentes que erroneamente era tratado como religião; o que talvez fosse interessante se nesse momento eu não tivesse avistado um rato comendo a maçã da senhora Ferdinanda.
E tipo, desde que aprendemos sobre leptospirose tememos os ratos mesmo que alguns deles sejam inofensivos. Mesmo assim, estava tudo errado! Sim e como estava! O rato estava usando uma gravada borboleta vermelha! E pra piorar quando percebeu que eu o encarava como um perfeito pateta, sumiu em um misto de poeira azulada e brilhos cor de prata.
Olhar para uma maçã e ficar boquiaberto e nem mesmo ouvir as inúmeras repreensões da senhorita Ferdinanda? Não, esse não era o tipo de comportamento que os educadores esperavam de alguém que estava próximo de receber alta. Claro que quando o inspetor me perguntou o que aconteceu, eu menti, inventei algo sobre como eu fiquei impressionado em saber os feitos dos grandes filósofos e isso pareceu convincente, pois o homem mal encarado nem mesmo franziu o cenho e me mandou de volta para sala.
Aquela noite, fui dormir assustado, tentava a todo custo acreditar que foi apenas um rato comum que sumiu por debaixo da mesa e que essa coisa de pó brilhante, e ratos engravatados não existiam; repetia pra mim mesmo que só faltavam quatro dias; só quatro dias tava tudo tão perto, ratos de gravata não existem, não existe esse pó azul, não existe sonhos, eu vou dormir e não vai ocorrer nada, esta tudo bem. Tudo bem...
_Ele conseguiu me ver Fatgoley, eu estava quase dando uma boa mordida naquela maçã e aquele pirralho da bochecha engraçada conseguiu me ver.
_Isso é impossível Bossley, ninguém no mundo das cinzas pode nos ver, temos que descobrir quem foi o garoto cuja imaginação fora forte o suficiente para criar o cataclismo esqueceu? Então pare de falar baboseiras.
_Mas e se, o garoto for ele? E se o garoto puder nos ver?
_Acaso está tendo outro devaneio? É! Deve estar sim, afinal o da ultima vez nos trouxe até aqui neste fim de mundo. Olha Bosley preste bem a atenção em mim. Não , há, condições, de pequenos garotos sardentos e rechonchudo, nos verem!
Perplexo com tudo aquilo a única coisa que fui capaz de dizer foi:
_Bom, eu estou sonhando ou o que?
O que sucedeu foi um caos total, o rato de gravata e cartola pinoteou de um lado para outro até achar um refugio seguro na aba do lençol; o gato peludo que dialogava com ele antes preto como a noite, fincou as garras no colchão, arqueou a coluna e eriçando todos os pelos do corpo tornou-se branco como neve.
Naquele momento eu só podia pensar em uma coisa:
_ “Vou ficar aqui pra sempre”.
Eu fechava os olhos desesperado, esfregava-os com a ponta dos dedos, mas eles continuavam lá; porque não sumiam com aquela nevoa azul? Por que não dessa vez? Por favor sumam,por favor!
Abri os olhos bruscamente na esperança de que eles não estariam mais ali, mais o que vi foi um par de olhos azuis profundos como o céu noturno, que me encaravam de perto de maneira curiosa.
Eu tentei gritar por causa do susto, até hoje me pergunto se foi sorte ou algum poder mágico daqueles dois, mais meu grito não saiu quando pulei assustado para a cabeceira da cama, arrastando o lençol, arremessando longe o ratinho.
A coloração do gato tornou-se mais viva na medida em que se aproximava de mim tomando tons de laranja e ferrugem, como se as poucos eles conseguisse controlar o pânico para poder se aproximar de mim, contudo, ainda incrédulo.
Parou bem perto de mim, sentou-se e enfezou o cenho exatamente como meu avô:
_com licença garoto, mas; você consegue mesmo me ver?
Eu não conseguia responder absolutamente nada, estava apavorado demais pra isso; mais meus olhos, vidrado em um gato grande e gordo que me encarava acompanhado toda e qualquer expressão que eu fizesse, eram suficientes.
As pupilas do gato se dilataram formando enormes fendas, e sua pelagem voltaram a ser quase branca, parece algo um pouco impossível para dizer, mais o gato estava com uma “mô” cara de medo.
Devagar ele virou a cabeça até o pequeno rato cujo tremulo e curioso se aproximava devagar da cabeceira, e disse:
_Ele consegue nos ver; e ... agora?
Por um momento o rato também pareceu empalidecer, apanhou o chapéu com as pequenas mãozinhas e colocou sobre a barriga com respeito. E sem tirar o olhos de mim falou de canto com o gato:
_ Foi ele que nos trouxe até aqui, mais aparenta não saber de nada.
_Vamos conversar com ele_ respondeu o gato.
_Você acha isso seguro?_ deu um passo atrás o rato.
_Não temos escolha, temos?
Apesar de me achar louco e ter certeza que ia ficar naquele lugar pra sempre, eu estava começando a achar aquilo INCRIVEL. Nem em mesmo quando eu sonhei a algum tempo... esperem! eu lembro desses dois! É claro! Bossley e Fatgoley, os aprendizes do mago, os dois irmãos esquisitos que conseguiam se transformar em animais.
Eu pensava; Dominik seu louco isso é só um sonho, eles não podem ser Bossley e Fatgoley, por que esses dois simplesmente não existem, foram apenas sonhos frutos da sua imaginação. Certo eu havia me convencido, fechei os olhos e como se nada tivesse acontecendo me encobri com o pesado edredom azul, virei de lado e fingi que estava pegando no sono; quem sabe os assistentes não tivessem ouvida nada, aê eu poderia alegar que não me lembrava de nada ou um provável sonambulismo.
_Ei! Psiu... garoto, ei garoto.
Era a voz de Fatgoley, eu conseguia sentir a sua respiração e o grave ronronar quando ele chamava, eu até poderia fingir que não estava rolando nada, mas ele estava me cutucando com aquelas patinhas miúdas.
Devagar eu fui virando a cabeça ainda com os olhos fechados, eu sabia que quando eu os abrisse eu ia ver a cara gorda e peluda de Fatgoley, mas mesmo assim rezava para que isso não ocorresse. Meu corpo regia a tensão com tremeliques aqui e ali, eu apertava cada vez mais os olhos pedindo a Deus que eu não os visse; então de repente um barulho, não um não, na verdade foram dois, o primeiro e mais estrondeante de todos foi de uma porta sendo violentamente aberto, o segundo foi quase imperceptível parecia um estalido meio surdo, como um traque em miniatura.
Abri os olhos, por um instante senti uma enorme felicidade, Bossley e Fatgoley não estavam mais lá, eram apenas frutos de minha imaginação; contudo, quando senti quatro mãos me arrastando da cama e dei por mim que eram enfermeiros, toda a felicidade se tornou desespero.
Eu havia dado muita asa a minha imaginação.
CAPITULO 2
Aos trancos e barrancos.
As crianças pulavam de suas camas e amontoavam-se nas portas do dormitório, e aglomerando-se formavam varias silhuetas com cabeças e olhinhos curiosos que me observavam com terror; eu gritava e esperneava tentando inutilmente me livrar dos enfermeiros mas eles eram homens troncudos enquanto eu era um saco de ossos. Pensei ver Bossley e Fatgoley correndo de um lado para outro em meio à multidão na tentativa de me alcançar. Grande coisa! O que um gato gordo e um rato idiota poderiam fazer? Não tinha jeito, desta vez eu estava realmente encrencado.
Em um dado momento eu quase não possuía voz; e aquele maldito corredor parecia não ter fim, as portas iam passando e o murmurinho ia aumentando, as crianças cochichavam assustadas sobre o que deveria acontecer comigo, hipóteses das mais malucas possíveis; desde cirurgias horrendas a possibilidade de eu ficar ali pro resto da vida;foi ai que minha voz voltou e eu comecei a gritar ainda mais alto.
A sala 31; nunca pensei que fosse estar lá um dia, bom, em poucas palavras era simplesmente o local mais temido do internato, todos sabiam que lá aconteciam as cirurgias, os tratamentos de choque além das sessões de tortura extrema até a criança pirar deveis ou melhorar totalmente; em fim eu tremia de medo!
Todo o internato era cinzento, mais aquele lugar era mil vezes pior que a sala do Dr. Oliver, à primeira vista aparentava não haver muita coisa se não fosse a maca na qual eu estava amarrado da cabeça aos pés, e uma forte lâmpada florescente que balançava de lá para cá de forma doentia, eu pensaria que estava vazia. Só depois notei que existiam alguns aparelhos que eu nunca tinha visto antes e uma cadeira ao lado da maca; e nela estava sentado um homenzinho de nariz engraçado que me olhava com uma frieza sem igual.
Todo o internato era cinzento, mais aquele lugar era mil vezes pior que a sala do Dr. Oliver, à primeira vista aparentava não haver muita coisa se não fosse a maca na qual eu estava amarrado da cabeça aos pés, e uma forte lâmpada florescente que balançava de lá para cá de forma doentia, eu pensaria que estava vazia. Só depois notei que existiam alguns aparelhos que eu nunca tinha visto antes e uma cadeira ao lado da maca; e nela estava sentado um homenzinho de nariz engraçado que me olhava com uma frieza sem igual.
Por um instante notei que a sala não possuía janelas e que o ar condicionado deixava tudo mais frio; notei também que a sala possuía algumas extremidades onde objetos estavam escorados junto a materiais de limpeza; tentei me certificar que não eram furadeiras, facões, ou até aparelhagens de alta voltagem, mas as amarras não me permitiram torcer o pescoço. Eu estava com tanto medo que fui tomado por uma onda repentina de inquietude, eu olhava para todos os lados menos para o lado que o senhor Grigue estava; apesar de meu horror eu não conseguia dar nem um “piu” enquanto era analisado pacientemente pelos olhinhos brilhantes por trás daqueles oclinhos redondos.
_Bom meu rapaz, parece que a sua situação se agravou um pouco neste estabelecimento_ começou ele, erguendo-se de repente esfregando seus dedinhos roliços uns nos outros.
_ Tenho que admitir que, me surpreendi muito quando fui avisado pelos enfermeiros; você foi umas das raras crianças que apresentaram um rápido índice de cura neste tratamento, mais é como dizem; “o que é bom, dura pouco”.
Aquela voizinha aguda me enchia de raiva e medo; além de me acusar de ser insano gozava do poder que possuía e demonstrava com todas as letras que minha sina era ficar muito mais tempo naquele lugar do que eu imaginava.
_ Nem precisa me olhar de cara feia, pois pelo que me consta vocês são muito bem alimentados aqui, você não precisa ficar enraivecido comigo, afinal bem lá no fundo você sabe que eu só quero o seu bem. Mas, é que as vezes para fazer o bem é preciso de um pouco de mal não é mesmo?
O sorrisinho que aquela cara gorda me lançou foi a coisa mais cínica que já vi em toda minha vida, o enorme bigode grisalho, as sobrancelhas espessas e o par de olhos verdes musgo lhe presenteavam uma expressão maliciosamente felina. Ficou por alguns instantes olhando pra mim com cara de paisagem e só depois de ver o meu desespero ainda mais de perto retirou-se da sala como se nada tivesse acontecido, me deixando amarrado olhando o teto cinzento.
É, mesmo sendo um garoto destemido tenho que dizer, as lagrimas corriam pelos cantos dos olhos uma atrás da outra, mas não eram apenas de medo, mais também de raiva da cara de satisfação do diretor Grigue. Eu pensava na minha mãe, nos meus poucos amigos, e nas inúmeras coisas que haviam sido deixadas para trás por causa de um sonho idiota; eu realmente gostaria de voltar no tempo naquele instante e jamais ter sonhado.
Aos poucos o sofrimento foi me abatendo cada vez mais e quando já não podia mais chorar o sono arrebatou-me com toda força; uma ora eu estava olhando fixamente para o teto cinzento a sala 31, noutra as coisas foram ficando mais escuras, à medida que minhas pálpebras iam ficando pesadas, escuro; muito escuro. Talvez, escuro demais...
O suor escorria gelado pelo meu rosto como se alguém tivesse acabado de me dar um banho; eu ouvia gritos, na verdade não sei bem dizer se aquilo eram gritos, pareciam mais com urros de agonia que gritos. Eu não podia sentir mais os meus pés, mas de alguma forma sabia que estavam machucados demais, os espinhos da floresta eram longos e afiados feito navalhas; eu corria o mais rápido que podia mais o farfalhar de asas aterrorizava-me em meu encalço.
Desesperado eu tentei gritar mais ninguém era capaz de me ouvir, a floresta parecia me engolir a medida que os espinheiros aumentavam e tudo começava a ficar realmente escuro; alguns segundos de agonia e eu estava preso no breu total, o farfalhar agora estava por toda parte como uma enorme revoada de morcegos que circulavam ao meu redor; eu me arrastei violentamente entre o espinho e entre arranhões e cortes encontrei um lugar seguro.
Para todos os efeitos parecia uma toca, mas o seu tamanho e proporção me preocupavam, apesar disso eu não tinha muita escolha; era entrar ou morrer. Me encolhi o Maximo que pude e tentei a todo custo conter minha respiração; aos poucos as coisas pareciam ficar mais tranqüilas lá fora, o barulho havia diminuído e com certeza eles tinham perdido o meu rastro.
Devagar eu me espremia para fora da toca, tudo estava saindo bem a não ser por toda aquela escuridão; definitivamente meus perseguidores tinham ido embora, eu estava com sorte por me arriscar tanto nestas terras e sobreviver. Mas meu coração não entendia o por que de meus de terem desistido tão rápido, mas uma mão gélida cheia de garras segurando meu tornozelo com uma força esmagadora foi suficiente para me lembrar.
Uma forte luz branca chamejou em meus olhos fazendo-os doer; eu estava de volta à sala 31 deitado num leito um pouco maior desta vez, meus braços e minha cabeça estavam cobertor por eletrodos e umas séries de aparelhos alinhavam-se do lado esquerdo da cama, a sala estava um pouco diferente, parecia estar maior e mais iluminada; uma poltrona branca acolchoada postava-se aos pés da cama e num canto quase imperceptível; Dr. Ilasmim, o médico do internato trancava o armário de medicamentos.
_ Doutor o que ouve? Onde está o Diretor Grigue?
Bom, depois que parei pra pensar nessas minhas primeiras palavras só podia ter certeza de que estava ficando pirado; havia tanta coisa útil a ser dita e eu fui perguntar logo pelo Diretor Grigue? Pelos céus!
_ O diretor não pode vê-lo agora Sr. Dominik, sugiro que descanse um pouco mais, o remédio que lhes demos possui efeitos colaterais horríveis se não houver o devido repouso.
Quase não pude compreender o que ele disse, sua voz parecia embolar e sua silhueta antes tão nítida parecia reflexos distorcidos numa possa d’gua agitada.
_ Quero sair daqui! Quero sair daqui agora!
Certo, obvio que eu nem conseguia gritar direito, fora que eu quase nem sentia meus braços e pernas, mas tinha certeza que estavam bem amarrados à cama.
_ Descanse meu jovem, não se preocupe a sua recuperação está indo de vento em poupa, logo você será capaz de ser reintegrado ao grupo._
Dizendo isso, aproximou-se cuidadosamente de mim, eu não conseguia ver direito e nem mesmo sentir; mas pelo pouco que pude notar ele estava prestes a injetar mais daquela droga em mim, e se não fosse pelo seu bip ele o teria feito.
_ Está com sorte hoje garoto, tenho uma emergência na sala 31; não saia daqui, não vai demorar muito eu prometo.
Certo, eu estava vendo tudo estranho, parecia estar dentro de um caleidoscópio gigante, não conseguia me mover e não adiantava gritar por que isso só ia piorar as coisas; definitivamente isso era um pesadelo!
Amarras, todas as imagens misturando-se, meu corpo quase imóvel; certamente não havia como escapar, desta vez eu realmente estava em sérios apuros e sozinho. Espere! Ele tinha dito sala 31? Que ótimo; eu tinha sido transferido e com toda a certeza estava numa daqueles salas especiais para os períodos de recuperação, onde entrar era difícil mais sair era simplesmente impossível.
_ Pô! Eu realmente tenho muita sorte! Realmente!
Pensei alto, talvez alto demais; ou então além de poder desaparecer em nuvens de fumaças azuis o ratinho também podia ler pensamentos.
_Ei ruivinho! Acorde, Ei, Ei? Você está bem? Acorde!
Bossley batia em meu rosto com a calda quase histérico quando finalmente abri os olhos.
_Bossley ! o que você está fazendo aqui?
Nem eu acreditei no que tinha dito, lá estava eu falando com o rato novamente.
_Ele sabe meu nome! É mesmo ele! Ouviu isso Fatgoley ? ele sabe meu nome, ele é o escolhido! Graças aos deuses nós o encontramos!
O pequeno ratinho tornou-se irremediavelmente eufórico, os pequenos pulos transformaram-se em verdadeiras acrobacias aéreas, seu chapéu que nunca sairá se sua cabeça começou a levitar e girar com leveza espalhando pequenas estrelinhas azuis por toda parte!
_ Controle-se Bossley! E cale essa maldita boca antes que alguém nos note!
O gato gordo pulou sobre minha barriga e acredite, eu nunca pensei que um gato pudesse ser tão pesado!
_ Precisamos tirá-lo daqui antes que eles nos alcancem, não temos muito tempo!
Apesar de ainda não conseguir enxergar direito, não era preciso muita observação para notar que Fatgoley estava extremamente sombrio, sua voz assemelhava-se a um ronronar rouco e silencioso e seus olhos estavam tão negros quanto seu pêlo.
Lembro-me de ouvir dois estalidos e passar os próximos dois minutos me perguntando como Bossley fora capaz de cortar os fortes cintos de couro com os dentes; mas não ouve tempo para falatórios, em um dado momento eu estava dentro da sala de tratamento no seguinte eu já estava me esgueirando pelas paredes dos corredores de pontinha de pé, torcendo para chegar depressa a escadaria sem ser notado.
A tensão só aumentava a cada passo, eu ainda estava meio tonto por conta da medicação e ziguezagueando pelo corredor principal eu realizava verdadeiras manobras para não ser pego pelas câmeras de segurança que não paravam de se mover. Fatgoley estava sempre em meu calcanhar, acompanhado todos os meus movimentos e passando entre minhas pernas com uma graciosidade unicamente felina enquanto Bossley seguia na frente correndo o mais rápido que podia pelo rodapé.
_ Rápido!_ afirmou Bossley quase sem ar.
A escada estava próxima! Apenas alguns passos e deixaríamos o leito de emergência sem deixar rastros, depois disso estaríamos no dormitório onde as janelas não eram tão altas e com certeza dava pra tentar uma fuga!
PAFT! O barulho daquela porta chocando-se contra a parede com certeza fora alto suficiente para acordar todos os internos, mais pareceu um tiro! O segurança esbaforido saiu correndo por um pequeno corredor que cortava à direita. Eu não tinha percebido mais as câmeras já haviam denunciado a minha tentativa de fuga e logo o alarme começou a soar fazendo zunir meus ouvidos.
Não dava pra descer pela escada o segurança, com toda certeza serias interceptados, o barulho do alarme estava me deixando completamente Tonto!
_ Por aqui! Tem uma passagem aqui! Venham logo! Depressa!
Claro! Existia mesmo uma passagem por ali, mais com a luz forte e o barulho eu não conseguia pensar em nada e minha cabeça parecia que ia explodir. Tratava-se de uma porta cinzenta e estreita quase camuflada no lado direito do corredor antes de chegar a escadaria; era uma espécie de armário, onde o material de limpeza era armazenado; por vezes os garotos mais velhos escapavam dos seguranças quando era pegos bisbilhotando o dormitório feminino. Por sorte a porta não estava trancada pois Bossley já havia entrado as pressas e esforçava-se ao Maximo para abri-la um pouco mais.
O mundo girava, os gritos de Bossley nos pedindo pressa estavam sumindo aos poucos, perdidos entre os tons da sirene que chiava cada vez mais alto; a tenção só piorava o efeito colateral da medicação, eu já podia sentir o gosto do meu café da manhã entalado na garganta mas mesmo assim consegui apertar o passo; o segurança já havia apontado no corredor principal e por sorte ele olhou para o lado oposto primeiro o que me deu um precioso segundo, que foi suficiente para eu praticamente me jogar contra a porta do armário.
Agachado próximo a um amontoado de panos de chão e baldes eu mantinha a cabeça baixa todo o tempo rezando para o segurança não ter notado minha presença, e mesmo com a visão baixa o meu mundo não parava de girar um só segundo, Fatgoley estava ao meu lado respirando fundo recostado em uma das minhas coxas, seus olhos estavam tão esbugalhados que pensem que fossem pular para fora a qualquer instante.
_ Ele não nos viu. Gra-gra-graças aos deuses...
Tremulo, Bossley quase não conseguia falar direito, seu pequeno chapéu parecia uma panela de preção prestes a explodir
_Fatgoley , rápido! Não po-podemos esperar muito tempo. Temos que tirar o garoto daqui.
O gato que estava recuperando o fôlego, subiu em uma de minhas pernas e empurrou meu peito contra a parede com suas patinhas peludas.
_Ei garoto, não temos muito tempo! Precisamos de você acordado para poder sair daqui! Ei garoto? Acorde! Acord....
Infelizmente naquele momento meu mundo deixara de existir, o barulho fora diminuído até ficar completamente inaudível, a visão foi me abandonando devagar e logo eu não conseguia nem mesmo sentir que estava sentado no chão úmido do armário de limpeza, e nem sentir o cheiro forte de podridão que pairava no ar.